Eu só conseguia pensar nela. Ela era meu sol. Tínhamos os mesmos gostos, os mesmos hábitos, os mesmos pensamentos. Não lembro bem como a conheci. Tudo parece um grande borrão que eu suplico todos os dias para que seja apagado definitivamente do meu cérebro. Ela era bonita e inteligente, divertida e engraçada. Impossível não pensar nela. Ela era meu céu, minha terra, meu ar. Agora imagine tudo isso indo. Para longe. Pois é, e foi.
Toda aquela vida ensolarada foi ofuscada e coberta por um eclipse que me deixou sozinho no meio do nada. Não havia céu, não havia terra e nem mesmo ar. Só eu e mais nada. Eu abaixei a cabeça e esperei que aquilo acabasse. Mas não acabava.
Eu pensava nela desde a hora que eu acordava até a hora de dormir. Quando deitava em minha cama, passava horas e horas pensando nela. Eu comia pensando nela, eu caminhava pensando nela, eu agia pensando nela. Mas ela havia ido embora. Sem nem se quer dar um adeus. Era impossível não sentir falta. Não ter saudades. Tudo em minha mente se assemelhava a ela e somente a ela. Tudo!
Até que um dia eu, ainda sozinho no meio do nada, fui surpreendido pelo nada virando algo. O eclipse havia terminado. Havia céu novamente, e terra, e ar. No entanto o céu agora era coberto por nuvens grossas e cinzentas. A terra se assemelhava muito a areia movediça. O ar estava poluído. O sol havia voltado. Ela havia voltado. Mas não era realmente o sol, assim como não era realmente ela.
Meus olhos me enganavam ao permitirem que eu enxergasse exatamente o que eu queria enxergar, e não a realidade. Enquanto eu via tudo ensolarado, ali só havia tempestades e mais tempestades atirando-me raios e trovões. Ela passou a me olhar com desprezo, vergonha, indiferença. Como se eu fosse só mais uma casa que ela, como furacão, derrubava. Como se eu fosse mais um desenho ou história boba que ela simplesmente amassava e atirava na lixeira. Mas eu continuava amando. O masoquismo tornou-se característica vital. Sem ela eu não existia. Eu podia estar na tempestade, mas ainda sim era melhor do que viver no meio do nada. Ou eu pelo menos achava que era.
Foi quando uma das nuvens soltou mais um de seus raios. Esse finalmente me acertando. E eu morri. Não. Eu acordei. Acordei e estava novamente no meio do nada. Não, não era o nada, eram dois caminhos. O da esquerda me levava de volta à tempestade que, apesar de me machucar, eu amava. O outro, da direita, me levava de volta ao eclipse. De volta ao nada. A dor de ter sido atingido por aquele raio me causou raiva. Eu ainda a amava. Mas por algum motivo impulsivo e sem razão, peguei o caminho da direita.
Quando eu cheguei ao nada, ia, por impulso, abaixando a cabeça, mas algo me impediu. Eu olhei para cima, para baixo, para frente, para trás, para esquerda, e para direita. E me surpreendi quando notei que o nada, nunca havia sido nada.
Quando ela foi embora, eu havia ficado com a vida ensolarada e mais do que clichê que eu tinha antes de conhecê-la. A tristeza por não ter mais o sol me fez ver nada, quando na verdade eu tinha tudo. Eu não precisava voltar e escolher o outro caminho. Eu não precisava da tempestade. O sol que havia ido embora nunca havia voltado e eu precisava me conformar com isto. A vida tinha muito mais que aquilo para me oferecer. E eu podia viver sem o sol, afinal o dia sou eu. Não valia mais a pena chorar por um sol que um simples eclipse havia transformado em tempestade. Então, eu me libertei.

Aaawn que lindo gabriel!
ResponderExcluirAmei esse texto, Gabriel. É denso e triste ao mesmo tempo. Parabéns.
ResponderExcluirPerfeito! O final ficou magnífico.
ResponderExcluirPor favor, meu favorito de todos.. af.
ResponderExcluirMt amor esse texto!!!
(sério)