09 dezembro, 2011

Três Crianças


           O dia estava nublado naquela tarde de novembro. Teria sido o cúmulo da normalidade se eu não tivesse caído da escada. Quando encontrei minha mãe, ela me consolou dizendo que íamos conhecer alguém à noite. Para uma criança de quase cinco anos, esta era uma notícia animadora.
            Mais tarde, ao entrar em uma sala escura, sentei-me em uma poltrona vermelha esperando o tal alguém. Meu relógio marcou oito horas e, de repente, a sala se iluminou e eu conheci aquele que minha mãe havia citado. Um garoto magricela de onze anos e uma marca na testa. Tinha dois amigos: o ruivo, engraçado e espirituoso, e a dentuça inteligente de cabelos cheios.
            Mas algo neles era diferente. Suas aventuras, seus pais, sua escola, suas habilidades. Era algo que me encantava, que me fazia sonhar, querer fazer parte daquele universo. Um ano se passou e eu reencontrei o garoto da cicatriz e seus amigos. Estavam felizes por voltarem a escola, algo que nem sempre acontecia comigo.
       O tempo passou e eu descobri que podia encontrar aquelas crianças não só na sala escura, mas também em páginas e páginas de escritos britânicos traduzidos que passei a implorar em todas as datas comemorativas possíveis. 
    Com o passar dos anos, fui me envolvendo mais e mais com aquelas três crianças. Quando dei por mim, já estava comemorando suas vitórias, lastimando suas derrotas e chorando as mortes e más descobertas que ocorriam ao seu redor.
            Até que numa tarde, eu, dez anos depois de ter caído da escada, fui até aquela mesma sala escura reencontrar o garoto da cicatriz na testa. Já era madrugada quando a sala, iluminada pelas três crianças, agora adultas, se apagou pela última vez. A última vez que vi meu amigo da cicatriz e seus amigos inseparáveis.
            Minutos antes, dezenove anos haviam se passado e as três crianças agora eram três adultos felizes, levando seus filhos para aquela mesma escola que eu ainda esperava ser convidado a entrar. O garoto da cicatriz estendeu a mão para dizer adeus aos filhos, e, na sala escura, interpretei o gesto para mim. Foi a última vez que os vi. Eu devia ficar feliz por eles estarem felizes, entretanto, um vazio tomou-me. Tomou provavelmente todos naquela sala, pois as pessoas puseram-se a chorar. E o mundo ficou mais triste.

5 comentários:

  1. Ficou perfeito! Sua melhor redação desse ano sem dúvida nem uma. Que depressão que bateu agora ):

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  2. Eu já ouvi essa história milhões de vezes ao vivo. Eu já li esse conto milhões de vezes sozinha, e cá estou eu novamente. (Desde o dia em que você me mostrou, nossa hein). É, o mouco já não é mais mouquinho :( Como crescem rápido, Senhor! Tá até escrevendo direito! Quem diria... Te amo, o texto tá ótimo, o blog tá lindo e você sabe que mais do que tudo eu desejo pra você todo o sucesso do mundo!

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  3. Ok, esse texto me deixou muito triste. De verdade, você escreve muito bem. Ainda estou tentando aceitar que Harry Potter acabou.

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  4. Me faz lembrar de minha infâcia, de meu mundinho imaginário que nunca de desfez, das noites à madrugadas de frio que passei deliciando-me com cada palavra dos livro de J.K. Foram bons tempos, que deixaram um vazio, lágrimas contantimente se apossam de meus olhos, e, não me fazem esquecer que um dia, eu sonhei em uma tarde com o pequeno Harry, a brilhante Hermione, e o cômico Rony.

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  5. Seu texto ficou incrível. Me identifiquei tanto com a sua descrição ali, achei tão linda.
    Enfim, voltando ao texto, fiquei encantada com cada palavra que você escreveu.. são tão verdadeiras!

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