06 agosto, 2012

Mad World

O poço era escuro e estreito. Também era frio, apesar de nenhuma gota d’água cair ali há anos. Era um mistério como a criatura lá embaixo sobrevivera tanto tempo.
No fundo daquele buraco gelado e solitário, a pobre criança continuava a olhar fixamente para cima, tentando entender como um lugar tão terrível podia dar visão para algo tão bonito: uma saída. Um ponto de luz branca vários metros acima dali era, sem dúvida, uma esperança de liberdade. Mas não dava para sair dali, era impossível, ela sabia. Estava sentada naquele lugar há tanto tempo que já se conformara que não havia escapatória. Mesmo assim era curioso: uma saída. Passara toda a vida ali, como nunca repara em algo que estava logo acima de sua cabeça? “Logo”. Era uma palavra otimista, a luz estava a metros, talvez a quilômetros do alcance da criança.

Ao seu redor, as paredes do poço não eram feitas de tijolos, mas de rostos, todos desgastados e sem expressão, e pior, familiares. Tudo aquilo era triste. Triste e cômico ao mesmo tempo. Apesar disso, a pobre criatura ainda esperava pelo dia em que seria feliz, o dia em que sairia dali. O dia em que se sentiria como toda a criança deve se sentir, o dia em que faria outra coisa além de sentar e ouvir vozes de lugar nenhum. Mas o dia nunca chegava. Nunca sairia dali, ninguém a ajudaria, ninguém a conhecia, ninguém se importava.
A verdade é que no fundo a criança queria morrer. Sonhava com isso desde que fora jogada ali, mas sua morte faria a felicidade dos monstros que haviam feito aquilo com ela. Preferia passar o resto de sua eternidade sofrendo do que felicitar àqueles monstros.
Ela olhou ao redor. Os rostos nas paredes a encaravam. Por algum motivo ela tinha impressão de estar sendo assaltada. Era como se aqueles rostos terríveis estivessem tentando sugar-lhe a alma. Começou a gritar. Sabia que não adiantava mas, mesmo assim, queria gritar. Pensou na vida. Pensou na morte. Ah, a morte! Até ela a esquecera, afinal... Tudo aquilo era triste. Triste e cômico ao mesmo tempo. A criança levantou a cabeça à procura do ponto de luz. Sumira. Suas lágrimas caíram. E ela começou a rir.

Um comentário:

  1. Ei, esse texto foi de arrepiar a espinha. Parabéns
    Ain ain (Remo concordando comigo)

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