18 janeiro, 2013

Morte

A segunda casa á direita, numa das vielas daquele bairro imundo, estava destruída e cercada pela polícia e pelos bombeiros que tentavam agora descobrir o que causara a tal explosão e aquele incêndio todo. Ainda não sabiam, porém, que debaixo daqueles destroços, onde costumava ser a cozinha daquela casa, um garoto jazia morto, ainda segurando o cabo da panela onde costumava fritar seus nuggets.
Durante anos o garoto havia vivido com a esperança de que nunca morreria, mas quando finalmente se conformou com tal condição passou a imaginar as mais diferentes formas dignas de morte: assalto em sua futura casa de dois andares no Soho, parada cardíaca lá pelos 120 e poucos anos... Mas nunca havia lhe passado pela cabeça algo tão indigno: a explosão de um botijão de gás... Era uma forma vergonhosa de se perder vida.

À cerca de seis ou sete quadras dali havia um cemitério, o mais sujo e podre de todos os cemitérios e, por coincidência, onde seu avô estava enterrado e para onde o garoto jurara que nunca iria. Porém uma morte tão precoce não estava nos planos do garoto e os pais, já entalados de dívidas, não tiveram escolha se não assinar os papéis de compra de um barato cubículo de 60cm² por 3m de comprimento, onde seria depositado o caixão de seu filho, numa das paredes mais ao leste do cemitério.
Todas as vezes que havia fantasiado seu enterro pouco daquilo lhe passou pela cabeça. Toda a sua família estava ali, inclusive os que ele não considerava da família. Pouco mais de meia dúzia de seus amigos também tinha vindo, mas os que mais chamavam atenção eram três: um garoto e duas garotas que, desde o velório, não haviam se desgrudado. Havia um ar abatido nos três, assim como olheiras combinando com seus olhos vermelhos e inchados. A que devia ser a mais velha das garotas parecia não saber o que estava acontecendo, enquanto a outra se aconchegava nos braços do garoto, com uma ou duas lágrimas ainda caindo a cada 20 minutos.
O caixão foi levantando pelo primo já casado do garoto, um dos tios, o irmão e um primo recém-saído da prisão que o garoto nunca fez questão de conhecer. A mãe, a avó, as duas tias e uma das primas choravam enquanto o pai fumava um cigarro há alguns metros de distância. Acabou voltando seu vício na noite passada ao saber da trágica morte de mais um dos três filhos que já havia tido.
O pedreiro do cemitério, como teria chamado o garoto, começou a cobrir com seus tijolos e seu cimento, que eram carregados em um pequeno carrinho de mão, o pequeno buraco onde agora repousava um adolescente que tanto sonhara com a vida. A prima do garoto, a que tinha a melhor letra, repetiu o gesto que havia feito oito anos antes com seu avô: retirou um graveto do chão e escreveu no cimento ainda mole o nome do garoto, aumentando involuntariamente o nome do meio que o garoto não gostava e encolhendo mais involuntariamente ainda o último nome que o garoto tanto adorava e tinha orgulho.
O graveto foi jogado no chão após gravar as datas de nascimento e óbito e, aos poucos, as pessoas foram saindo. O garoto fora deixado para trás, dentro de um estúpido caixão, assim como todos os seus sonhos de um dia mudar o mundo. O livro que ele planejara ter mais de 100 páginas não havia passado da 16. Onde estava o garoto agora? Essa era a pergunta que ele sempre se fazia quando imaginava sua morte.
Depois que todos já haviam ido uma última pessoa passou perto de onde agora poderia se chamar de “a campa” do garoto. Usava fones de ouvido e de algum lugar, o adolescente recém-falecido conseguiu ouvir pela última vez um dos versos de uma de suas canções favoritas:
“The dreams in which I’m dying are the best I’ve ever had.”

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