O poço era escuro e estreito.
Também era frio, apesar de nenhuma gota d’água cair ali há anos. Era um
mistério como a criatura lá embaixo sobrevivera tanto tempo.
No fundo daquele buraco
gelado e solitário, a pobre criança continuava a olhar fixamente para cima,
tentando entender como um lugar tão terrível podia dar visão para algo tão
bonito: uma saída. Um ponto de luz branca vários metros acima dali era, sem
dúvida, uma esperança de liberdade. Mas não dava para sair dali, era impossível,
ela sabia. Estava sentada naquele lugar há tanto tempo que já se conformara que
não havia escapatória. Mesmo assim era curioso: uma saída. Passara toda a vida ali,
como nunca repara em algo que estava logo acima de sua cabeça? “Logo”. Era uma palavra
otimista, a luz estava a metros, talvez a quilômetros do alcance da criança.
Ao seu redor, as paredes do
poço não eram feitas de tijolos, mas de rostos, todos desgastados e sem
expressão, e pior, familiares. Tudo aquilo era triste. Triste e cômico ao mesmo
tempo. Apesar disso, a pobre criatura ainda esperava pelo dia em que seria
feliz, o dia em que sairia dali. O dia em que se sentiria como toda a criança
deve se sentir, o dia em que faria outra coisa além de sentar e ouvir vozes de
lugar nenhum. Mas o dia nunca chegava. Nunca sairia dali, ninguém a ajudaria,
ninguém a conhecia, ninguém se importava.
A verdade é que no fundo a
criança queria morrer. Sonhava com isso desde que fora jogada ali, mas sua
morte faria a felicidade dos monstros que haviam feito aquilo com ela. Preferia
passar o resto de sua eternidade sofrendo do que felicitar àqueles monstros.
Ela olhou ao redor. Os rostos
nas paredes a encaravam. Por algum motivo ela tinha impressão de estar sendo
assaltada. Era como se aqueles rostos terríveis estivessem tentando sugar-lhe a
alma. Começou a gritar. Sabia que não adiantava mas, mesmo assim, queria
gritar. Pensou na vida. Pensou na morte. Ah, a morte! Até ela a esquecera,
afinal... Tudo aquilo era triste. Triste e cômico ao mesmo tempo. A criança levantou
a cabeça à procura do ponto de luz. Sumira. Suas lágrimas caíram. E ela começou
a rir.
Ei, esse texto foi de arrepiar a espinha. Parabéns
ResponderExcluirAin ain (Remo concordando comigo)